Gosto vago pelo noturno das ruas. Vontade do vazio da cidade.
Largar a lucidez que tolhe a compreensão e sabedoria do já visto e seguir. Caminhar ouvindo o eco na calçada.
Luzes amarelecendo o abandono do burburinho.
Buracos nas casas indicando a solidão de vizinhos.
Medo do escuro inesperado. O sabor amargo da surpresa que pode assaltar e roubar uma vida.
Rostos desconhecidos que olham e não se reconhecem. Amantes que brigam por tolices e pessoas que se entendem sem saber o que disseram. Faces inexpressivas de tanto sofrerem e a dor imaginária estampada em corpos sadios. Crianças órfãs em busca de pais vivos. Mendigos de si próprios jazem cobertos pelas caixas que embrulharam o último modelo de televisão.
Risos nos bares. Sabidos exploram soluções para problemas mundiais.
Lixo nos tropeços errantes.
Árvores, capim, canteiros inúteis.
Encontros, partidas, renúncias, abraços, promessas…
Botas que esfolam passos cansados.
Pés pesados de remorsos.
Zumbis entre fantasmas luminosos.