26 Dezembro, 2007
24 Dezembro, 2007
23 Dezembro, 2007
Ardor
Gostaria com todo ardor de escrever frases inteligentes e que tivessem algum conteúdo, uma mensagem boa, uma lição de vida, ou qualquer coisa filosófica. Enfim, ter pensamentos grandiosos. Deixar as tolices de lado.
Gostaria de sentar ao lado direito do Criador e por ele ser inspirada para tornar-me um artista verdadeiro.
Senhor bafeja teu Sopro Vital sobre meu intelecto e transforma-me em Kalliope. Projeta-me além do Caos. Deixa-me desvelar o Não-Ser e retirá-lo daquele Reino de Sombras para fazê-lo fulgurar no esplendor do SER.
22 Dezembro, 2007
Travessia
Durante uma curta viagem, escutei um homem atrás de mim conversando com outro. Falava do centro que freqüentava, não sei que corrente é. Dizia que lá aconteciam coisas que não tinha visto em nenhum outro lugar.
- O dono do centro era fantástico, o filho dele trazia numa bandeja uma garrafa de cachaça, fechada com a tampa e uma porção de charutos. O sujeito abria a garrafa com os dentes e tomava tudo num gole só. Atirava a garrafa para trás e dizia: lá vai. Pegasse onde pegasse. Aí começava a te escutar e dar os devidos conselhos. Lá pelas tantas dizia: “Pera aí que vou me dar um trato”. Aí tirava um punhal com uma lâmina assim (minha educação não me permitiu olhar para ver o tamanho da lâmina) e espetava de um lado a outro do braço. E quando tirava não saia uma gota de sangue.
- Mas como? nem marca ficava? – perguntou o outro.
- Não, ficava uma marquinha preta que depois desaparecia. O filho dele (era outro espanto), tinha que ver o que fazia.
Dei uma dispersada e quando voltei a ouvir…
- Ele esvaziava um monte de garrafas de cachaça, depois quebrava e caminhava e caminhava por cima. Não cortava nada. Se fosse qualquer outro já estava indo direto pra emergência. E o cara caminhava pela platéia e mostrava o pé. “Taqui, ó, quem ta duvidando… Nenhum cortezinho”. Outro ali estava internado.
Sério, o companheiro perguntou:
- E como se explica isso?
- Eu já li muito a respeito, tenho uma porção de livros lá em casa, parece que é a força do pensamento que faz isso acontecer. É preciso estar completamente incorporado pra fazer isso, meio incorporado não dá.
Perdi um pedaço da conversa, o assunto era meio sem interesse. Quando minha atenção retornou já estava falando de uma cobra sucuri que se enrolava no pescoço da sua mulher e ficava sacudindo o rabo fazendo um barulho chato, irritante (é impossível reproduzir o barulho que ele fez).
- E esta cobra é venenosa? – perguntou o outro.
- Parece que é, não sei bem. Ela fica num vidro, guardada lá no centro.
- E ela não foge?
- O vidro tem uma tampa. Ela fica fechada.
- Sem ar?
- Não, a tampa é cheia de furinhos, o ar entra por ali.
- E o que come essa cobra? Ela não se alimenta?
- É claro que sim.
- De quê?
-De insetos… insetos, rato de vez em quando. Mas a minha mulher não sabe, quando ela incorpora não sabe de nada, não lembra, depois tenho que contar tudo o que aconteceu no centro. O dia que ela souber sai do centro. Ela já disse. E o espírito que incorpora nela também já disse que se ela souber acabou-se, o espírito não volta nunca mais, ele alertou. E ela precisa trabalhar até ficar velhinha. Tem pessoas que têm esta missão, e tem que cumprir.
- Pois é, eu sei, eu já fui em centros também. Foi a empregada da minha mulher que nos levou. Eu não gosto muito disto, mas fui, não é?… Eu acho que tá certo, é preciso ter fé. Eu é que não sinto nada quando estou lá dentro, e é preciso sentir, eu sei.
- Pois é, tem que sentir mesmo. É uma coisa que toma conta da gente. Esta mulher com quem estou casado, veja bem, tem só o primário e fala tupi-guarani. Ninguém ensinou, não se ensina tupi-guarani em escola. Tem gente por aí que tem faculdade, uma porção de diplomas e não sabe falar. Mas ela fala com a cobra em tupi-guarani. A cobra atende. E quando aparece a sucuri, vou te dizer, se tem umas 30 pessoas na platéia, ficam, no máximo, umas 12. Saí todo mundo correndo. Na platéia os homens ficam de um lado e as mulheres de outro. Aquele cara que te falei que expulsei do centro, porque eu estava desconfiado que era um impostor, na primeira vez que a cobra apareceu, ele saiu correndo. E como eu já era o presidente, pude expulsar ele dali. Veja bem, se estivesse incorporado não teria saído correndo. Teria ficado ali, firme.
- Imagine! ver alguém com uma cobra enrolada no pescoço não é pra qualquer um.
- É, mas ela atende à minha mulher, ela faz assim (fez um barulhinho com boca) e a cobra vai subindo do chão, pelo braço e se enrola. Tem uma mulher lá que é quem vai buscar o vidro e que guarda a cobra, que volta-e-meia quer pegar a cobra com a mão. A cobra dá com a cabeça na mão dela. E a entidade diz assim: Já falei umas quinhentas vezes que não é assim. Qualquer dia ela vai te picar. É assim, e diz umas palavras em tupi-guarani e a cobra vai. Não sei como ela consegue fazer. A cobra atende ao que ela disser.
Dei uma cochilada. Na hora da saída dei uma olhada para trás para ver eles eram. Ninguém diria que aquelas pessoas tinham tido aquele tipo de conversa.





